Acordei encharcada e não tinha cor - a bolsa rompeu.
O liquido vazava pelas pernas de pouco em pouco.
Subi as escadas e
alardei o mundo
desci sorrindo, cúmplice de mim e de minha crianciçe dupla.
E o mundo foi chegando.
E o mundo foi gritando.
E eu era um alvo redondo e nu
- e ainda ria
Lá pelas onze eu me deitei.
Esperei.
Tirei brincos e anéis, entreguei minhas roupas, vesti um uniforme – coisa de prisioneira, pensei.
E os parentes foram afastados, quase todos
- e eu ainda ria
Quando a noite chegou alta eu estranhava os cachos histéricos de mulheres parindo..
Os moleques nasciam, escorregavam, pulavam feito pop up's na cara dos doutos.
E nada de meu grão.
Parei de rir. Nascer era demais triste. A demora era triste.
E me pus a berrar.
Doía, doía muito.
Soltei meus cabelos e gritei. E achei que fosse morrer e achei que estava louca e que todos estavam loucos e que o mundo estava louco de não me obedecer.
Implorei, virei menininha miúda, me pus entre o rabo e as coxas e agora quem nascia era eu.
E foi justo na madrugada friinha, quando ninguem mais nascia e tudo estava calmo que ela veio.
E a dor passou
e meus olhos ganharam outro rumo
e sorri: as mãos dela eram maior que tudo – um exagero divino às quatro da manhã.
Bonita, abriu os olhos, me cheirou o nariz e me lambeu.
Toda borrada do meu sangue.
Ganhamos pulseirinhas iguais – que atestavam que ela era minha – ou que eu era dela, tanto faz.
Fiquei boba e demorei algumas semanas pra desfazer o mimetismo.
Agora ela se alimentava de mim, reconhecia meus batimentos cardiacos, meu cheiro – e eu passei a gostar de minha voz.
Tinha ensaiado várias vezes o que cantar, e cantei.
Cantei durante dias – noites e madrugadas. Não dormi.
Talvez eu nunca mais durma.
Mas estamos bem.
Eu virei mamãe, um moço que amo virou papai e ela vem aprendendo que a coisa miúda dentro dos olhos da gente é ela.
Eu poderia ser o ventre, a grande mãe, a grande deusa.
Poderia dispor de pele e abismos, terremoto e fluidos.
Ser a mistura do osgasmo e do vento, púbio e endométrio. ...
mas venho aprendendo a ser um pedaço de cada vez.
Normalmente apenas um peito, outras vezes a razão de encanto de uma menininha.
E basta.

1 comentários:
Me fez ter mais vontade de ser mais feliz, de nascer também.
Lindo Rai, muito lindo.
Preciso re-conhecer Eva. Minha poesia urge.
Cheiro com gosto molhado na boca.
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