segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011


Acordei encharcada e não tinha cor - a bolsa rompeu.

O liquido vazava pelas pernas de pouco em pouco.

Subi as escadas e

alardei o mundo

desci sorrindo, cúmplice de mim e de minha crianciçe dupla.


E o mundo foi chegando.

E o mundo foi gritando.

E eu era um alvo redondo e nu

- e ainda ria


Lá pelas onze eu me deitei.

Esperei.

Tirei brincos e anéis, entreguei minhas roupas, vesti um uniforme – coisa de prisioneira, pensei.

E os parentes foram afastados, quase todos

- e eu ainda ria


Quando a noite chegou alta eu estranhava os cachos histéricos de mulheres parindo..

Os moleques nasciam, escorregavam, pulavam feito pop up's na cara dos doutos.


E nada de meu grão.


Parei de rir. Nascer era demais triste. A demora era triste.

E me pus a berrar.

Doía, doía muito.

Soltei meus cabelos e gritei. E achei que fosse morrer e achei que estava louca e que todos estavam loucos e que o mundo estava louco de não me obedecer.


Implorei, virei menininha miúda, me pus entre o rabo e as coxas e agora quem nascia era eu.


E foi justo na madrugada friinha, quando ninguem mais nascia e tudo estava calmo que ela veio.


E a dor passou

e meus olhos ganharam outro rumo

e sorri: as mãos dela eram maior que tudo – um exagero divino às quatro da manhã.


Bonita, abriu os olhos, me cheirou o nariz e me lambeu.

Toda borrada do meu sangue.


Ganhamos pulseirinhas iguais – que atestavam que ela era minha – ou que eu era dela, tanto faz.

Fiquei boba e demorei algumas semanas pra desfazer o mimetismo.


Agora ela se alimentava de mim, reconhecia meus batimentos cardiacos, meu cheiro – e eu passei a gostar de minha voz.


Tinha ensaiado várias vezes o que cantar, e cantei.


Cantei durante dias – noites e madrugadas. Não dormi.

Talvez eu nunca mais durma.


Mas estamos bem.

Eu virei mamãe, um moço que amo virou papai e ela vem aprendendo que a coisa miúda dentro dos olhos da gente é ela.


Eu poderia ser o ventre, a grande mãe, a grande deusa.

Poderia dispor de pele e abismos, terremoto e fluidos.

Ser a mistura do osgasmo e do vento, púbio e endométrio. ...


mas venho aprendendo a ser um pedaço de cada vez.

Normalmente apenas um peito, outras vezes a razão de encanto de uma menininha.

E basta.

1 comentários:

Mamá disse...

Me fez ter mais vontade de ser mais feliz, de nascer também.


Lindo Rai, muito lindo.
Preciso re-conhecer Eva. Minha poesia urge.

Cheiro com gosto molhado na boca.